sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Contos - Zé do Boteco



Conto do Zé
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No Rio de Janeiro, existe uma cultura que se repete a cada esquina, a “Cultura de Botequim”. Com histórias e personagens inusitados e irreverentes. Algumas são dignas de contos, crônicas e livros.
A história de hoje é do estilo Nelson Rodrigues, não é ficção. Alguns mestres da escrita dizem que a maior fonte de inspiração é a realidade. Nelson era jornalista, tirava suas histórias do jornal. Porém, essa, boa parte se passou no boteco que eu freqüento.

Lá no bar do baixinho, tem todo o tipo de gente. Homens e mulheres, nordestinos e portugueses, porteiros e executivos, todos se relacionam com igualdade. Até o preconceito é menor. Zé, um homossexual amigo de todos, freqüentava o bar regularmente. Um paraense muito extrovertido, engraçado e flamenguista. Rolava um papo que alguém do bar mantinha um relacionamento amoroso com ele, mas era segredo e ninguém sabia quem era. Um dia, surgiu como uma bomba o nome do indivíduo.
Seu Antônio, outro freguês assíduo do bar. Um homem forte, portador de uma masculinidade indiscutível e um profundo conhecedor do jogo de purrinha.
No primeiro dia de janeiro de 2005, Jô a mulher de Seu Antônio, andou de bar em bar dizendo, gritando o ocorrido do dia anterior. Justamente no reveillon.
Zé, não sei se para disfarçar ou por uma mudança de atitude resolveu se casar com uma senhora que também freqüentava o bar. O casal morava no mesmo prédio de Seu Antônio, no apartamento de baixo.
Os dois casais amigos, estavam juntos, no apartamento do Zé preparando a comida para a noite festiva. Essas palavras são da Jô:
- Estava quase tudo pronto, quando meu marido resolveu ir para casa tomar banho.
- Estava demorando, e o Zé disse que ia chamá-lo.
- Passou mais um tempo, já tinha acabado de fazer a comida e eles não voltavam.
- Resolvi chamá-los.

Quando ela chegou em seu apartamento avistou uma cena lamentável. Entrou pela cozinha, quando passou pelo basculante e viu Seu Antônio enraberando o Zé. Na sua cozinha, em frente a pia que fazia comida todos os dias. No momento que Jô passou, Zé percebeu e gritou: - A Jô. Seu Antônio retirou repentinamente seu pênis. Ao tirar, não sei se por nervosismo ou pelo vácuo, só sei que o veado espalhou merda pela cozinha inteira.
- O safado do meu marido é bem dotado. Acabou arrombando aquele veado.
- Foi parar no Hospital. Teve que tomar seis pontos no brioco.

Jô ainda falou que desceu toda escada dando porrada no marido e no Zé.
A festa de Ano Novo foi para o espaço.
No dia seguinte, Jô fez questão de falar para todos os amigos de Seu Antônio o ocorrido. Repetiu a história várias vezes. Estava obstinada a acabar com a moral do seu marido.
Passadas duas semanas, justamente no dia do meu aniversário. Eu marquei com a galera para comemorar no já tradicional no Bar do Baixinho. Mesa cheia, altos papos, quando eu avistei a Jô contando para mais gente o seu castigo. Olhei para outro lado e vi o Zé, bebendo. Falei: - Vai dar merda. Não deu outra. Quando olho novamente, Jô com uma faca na mão, sai correndo em direção do Zé. Gritando:
- Eu vou te matar seu veado filho da puta.
Os amigos correram para tirar a faca de sua mão. Mas mesmo sem a faca ela partiu para cima do Zé. Segurou pelo braço e começou a soca-lo. O veado ainda teve a coragem de falar:
- Ele me procura porque você não é mulher para ele.
- Não dá conta.
Zé foi embora para evitar confusão, mas a sua mulher continuou. Jô foi relatar o fato mais uma vez. A esposa do veado persistia em não acreditar e também foi embora. Logo após, chegou o filho de Jô e Seu Antônio. Um rapaz de uns 20 anos, com aquele estilo tijucano, nunca leu um livro, nunca foi ao teatro, filme só se for dublado e com muitos tiros e explosões, um ser que sobrevive à margem do conhecimento. Mas, um rapaz bonito, com uma moto barulhenta e sempre com uma menina na garupa. Uma grande discussão em torno do problema ocorria e o garoto malandramente retirou a faca escondendo de sua mãe que já ameaçava atacar o marido.
Passadas mais duas semanas, num desses sábados que não tem nada para fazer, decidi beber uma cervejinha, agora sozinho, me encaminhei para o bar, chegando percebi que os envolvidos estavam discutindo, como se nunca tivessem saído de lá. Seu Antônio estava revoltado, andava de um lado para outro. Vi, também o Zé bebendo com uns amigos e me preparei para analisar o desfecho da confusão, se é que um dia ele vai acontecer. A confusão começou, Zé está disposto a encarar. A novela está cada vez mais interessante, mas para desgosto da platéia a mulher convenceu Zé ir para casa. Porém, mais novidades estariam por vir.
Pela masculinidade do Seu Antônio e por ter arrombado o veado, todos imaginavam que seria a primeira vez. Ai veio o engano, antes de ir embora Zé disparou:
- Há mais de 10 anos que ele me come. E ele dá também.
Depois, como um tiro de misericórdia, sacramenta:
- E teu filho também já me comeu várias vezes.
O rapaz estava com a namorada. Foi um tiro fatal. Quando olhei para os olhos de Jô. Percebi que aquelas palavras feriram mais do que mil facadas.
Gustavo Moura Brasil


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