quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O sumiço da cuíca



O sumiço da cuíca

Nos dias de hoje o computador tomou conta da música completamente. Os instrumentos foram substituídos por teclas de computador e de pequenos teclados. Podemos executar qualquer som conhecido pelo homem e ainda com possibilidades completas de tratamento de áudio. Achei na internet relatos de antigos músicos que gravavam baixo, bateria, guitarra, teclado e ainda cantavam. Hoje, um músico sabendo escrever partituras, toca qualquer instrumento mesmo sem ter visto um. Numa gravação ou num show, os únicos instrumentos presente são os computadores. Esta é pretensão, unificar diversos seguimentos da expressão humana numa só máquina. O rádio, a TV, a internet, os desenhos gráficos, as artes, os livros, o amor e até mesmo os vícios. Na música não é diferente. O baixista não toca um baixo, o guitarrista (O que diria Jimmy Page ou Hendrix?) também não, nem na bateria, na percussão, nos sopros, em nada, tudo vem através de teclas, e também pode ser feito por uma pessoa só.

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Mesmo inibindo a criatividade na busca de novos sons, eu até entendo o interesse pela capacidade de armazenamento e de tratamento do som. Mas o problema que enfrentei gerou uma reflexão. Como museólogo e funcionário do governo do estado, fui chamado para auxiliar na montagem do setor do samba, do novo Museu da Música Popular, no Rio de Janeiro. Com o maior acervo de música regional das Américas. Com discografias, livros, fotos, filmes, roupas e, onde esta meu problema, os instrumentos. Como encontrar instrumentos musicais em pleno 2187. Num tempo, onde não existem mais lojas ou qualquer pessoa que os venda. Soube de uma profissão antiga, chamada Lutier, construtor de instrumentos musicais, mas o último morreu em 2035. Como eu conseguiria encontrar esses instrumentos? Revirei diversos museus, instituições, recorri a pesquisadores, contratei até uma fábrica de moveis luxuosos em madeira. Já não existem mais madeiras nobres ou de boa qualidade todas são de eucalipto ou árvores de madeira ruim, foi muito caro produzir alguns dos instrumentos.

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Com muito custo reuni quase todos: Cavaquinho, Tam-tam, Tamborim, Violão e outros. Porém, não encontrei de maneira nenhuma, um instrumento chamado Cuíca. Sabia o som da cuíca, mas não sabia como ela era. Será redondo? Reto? De madeira? De plástico? Não tenho a mínima idéia. Um pesquisador da Universidade Nacional, ex-UFRJ, Prof. Michel Fontes, me mostrou fotos, vídeos e gravuras da Cuíca, mesmo assim não conseguimos entender como retirar aquele som do instrumento. A cuíca parece um tambor que não se bate, reparei o musico com uma mão na parte interna do tamborzinho, porém não entendi o processo. Será que ele bate no tambor? Ele fricciona? Ele aperta um botão? Não sei. Eu e o pesquisador, sem opções, fizemos uma réplica de um tambor e expomos assim mesmo, sem ter a mínima idéia de como se toca o instrumento. A pessoa se aproxima da “Cuíca” e o sensor aciona a música no auto-falante. Temos o som, a tecla e o músico, mas não temos o instrumento emissor. Assim com não podemos mais andar na Mata Atlântica, nadar no mar ou num rio, ver aves voando, sambar numa roda.
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Gustavo Moura Brasil


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